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O cinema, os jovens e as nuvens

João tem 16 anos, traços finos, pele escura, corpo esguio e sorriso fácil. Logo depois de entrar na biblioteca onde o professor de biologia começava uma oficina de cinema, decidiu beber água e foi autorizado pelo agente que levantou sua camisa, apalpou sua cintura e com o braço esticado bateu no saco do João para ter certeza de que ele não saía da biblioteca com nada escondido na cueca. Ao deixar a sala, João se deixou revistar com naturalidade, não interrompeu a fala com um colega nem esboçou qualquer resistência. Durante as duas horas que ficamos na Escola Estadual Jovem Protagonista, no Centro de Reeducação Santa Clara em Belo Horizonte, João foi revistado cinco vezes.

No Santa Clara vivem 95 jovens. Diferentemente do que seria nosso ideal, as oficinas de cinema são utilizadas ali dentro como moeda de troca para o bom comportamento. Os que criam problemas, sobretudo com a segurança, estão fora das oficinas. O cinema é prêmio, enquanto a Biologia do professor que nos recebia é obrigatória em salas de até 12 internos. João está no segundo ano do segundo grau, e naquele dia veríamos os vídeos que ele e outros 8 “premiados” haviam realizado na última oficina, há 15 dias.

A oficina acontecia na biblioteca. Um espaço com uma mesa para dez pessoas, algumas outras cadeiras espalhadas, uma “tela de cinema” feita de cartolinas brancas pregadas umas nas outras e livros, obviamente. Livros que pareciam ter chegado ali em pacotes de compras e doações. Alguns novos e repetidos, outros que pareciam ter ganho aquele espaço por conta de algum estranho desvio no destino: “O relatório Hite” e “Macroeconomia Avançada”, por exemplo. Mas, entre eles, muitos e muitos clássicos. Um espaço em que qualquer leitor poderia ficar anos. O livro mais manipulado que encontrei foi Estação Carandirú.

Para a realização dos trabalhos da semana anterior, os alunos usaram o dispositivo chamado Espaços Vazios. Nesse dispositivo a proposta é a seguinte: “Fotografar o interior de casas sem a presença de pessoas no quadro. “ Uma citação do poeta Manoel de Barros abre o dispositivo apontando para suas intenções: “A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos”.

Nos detendo por alguns dez segundos em cada foto, vimos umas 50 imagens. A primeira impressão é o contraste que muitas dessas imagens traziam com tudo que eu havia visto até chegar naquela sala. No meu caminho, eram as grandes, os muros, os vigias e as revistas que ocupavam todo o espaço. Nas imagens dos jovens, a prisão estava presente, mas como um resto, como algo quase saindo do quadro. Nas imagens com forte concentração formal, não havia a deliberada intenção de esconder a prisão, mas era como se o trabalho dos rapazes tivesse introduzido uma nova camada naquele espaço. Um olhar que unia os elementos da prisão com um olhar amplo, criativo e indomável.

O dispositivo é manipulável, adaptável. A primeira adaptação do Espaços Vazios era óbvia. Os estudantes não podiam filmar a casa de ninguém. Nem as suas próprias. Os dormitórios são os espaços onde os profissionais de educação ou visitantes não têm acesso e os internos não podem entrar ali com câmeras. Os espaços vazios do Santa Clara foram a quadra, os corredores, o céu, os muros, etc.

As imagens de João eram todas em movimento. Com a câmera fixa no lugar de fotos, ele fez pequenos vídeos de não mais de 15 segundos. No primeiro víamos, em plano aberto, uma parte das grades da quadra, o muro ao longe com forte grafismo e, entre a quadra e o muro, um arbusto ocupando o lado esquerdo do quadro que com o vento fazia leves movimentos. O segundo vídeo era também um plano aberto em que víamos o movimento das nuvens e, na base do quadro, uma parte da cerca da escola. Sobre esse plano, durante as conversas sobre as imagens, um outro jovem disse ao ver a cerca: “parece um condomínio”. Uma associação das mais importantes: Ele, ali na “cadeia”, como eles mesmos chamam os socioeducativos, associava aquele espaço a lugares que não estão privados de liberdade, pelo menos perante a lei. Como se nos dissesse de uma privação de liberdade que não é exclusiva da vida dele, como se fizesse a continuidade entre o interior e o exterior do Socioeducativo. A terceira imagem de João, também um vídeo de 15 segundos, mostrava uma fumaça vinda de longe.

As opções do rapaz eram claras. Em todas as imagens ele foi rigoroso no quadro e optou por filmar micro-movimentos aleatórios. O espaço fechado, super-vigiado e duro era ali atravessado por um vento na nuvem, arbusto ou fumaça, por um acaso que vinha de outro lugar. João procurou o descontrole, criou com elementos delicados e levados pela imprevisibilidade do vento, formando assim formas orgânicas instáveis que contrastavam com a dureza das linhas retas dos muros, quadras e grades.

João fez imagens de quem olhou para aquele espaço com uma sensibilidade que escapa radicalmente do lugar que todos esperam que ele ocupe. Não fez o “papel de bandido”, não foi “o coitadinho”, não ficou refém das poucas narrativas que o mundo espera dele. Pelas imagens, o rapaz conectava sua sensibilidade às de tantos outros em qualquer lugar do mundo, ou com tantos espaços de arte. Depois da apresentação comentamos as imagens de João chamando atenção para essa concentração ao detalhe, para o aleatório e para o descontrole que o vento trazia de fora. João não havia pensado em nada disso e apenas concordou: é isso mesmo, disse de forma irônica. Ressocializar esses jovens, como diz o Estado, é antes de tudo, criar um mundo comum, possibilitar um processo subjetivo que faça escorregar os recortes identitários determinantes do que eles podem ver, sentir, dizer. João estava ali nos provando que esse mundo comum é possível.

Um outro rapaz, Fabio, fez uma opção com fotos que traziam um diálogo com as escolhas de João, mas bem diferente também. Fabio fotografou detalhes de muitas coisas no Socioeducativo, transformando elementos banais em pequenos objetos que tendiam à abstração: um interruptor, uma caixa de luz, um tijolo, um copo. À sua maneira, expos o espaço sem nenhuma referencia ao seu caráter prisional, ao mesmo tempo em que parecia inventar pequenos mundos em cada imagem.

A reação dos estudantes a este trabalho foi especialmente entusiasmada. Por um lado, viam objetos singulares; a caixa de luz parecia uma espaçonave ou uma bomba relógio, o tijolo vazado um túnel do tempo e o copo, atravessado pelo sol, uma luminária. Por outro, surpreendiam-se por nunca terem visto aqueles objetos apesar de estarem tão próximos. Essas imagens traziam assim uma alta dose de criação acoplada à experiência mesmo de um olhar que inventaria o espaço entre o ordinário e o extraordinário, mas, sobretudo, inventável, fabulável.

Durante as oficinas, a biblioteca foi enchendo. Começamos com Ana Lucia Azevedo e Alexandre Pimenta pelo Inventar com a Diferença, Rodrigo Monteiro, professor da turma e um agente de segurança – todas as aulas são acompanhadas por um agente com algemas na cintura. No final da oficina uma professora de português, um professor de matemática e mais dois agentes haviam se juntado ao grupo. Os agentes acompanharam o trabalho não sem uma certa inveja, ao verem os internos com computadores e câmeras. Vale lembrar que celulares e internet não são permitidos no Socioeducativo e a comunicação com o exterior é feita apenas por cartas. Alguns jovens ficam ali meses sem receber visitas, uma vez que o Centro recebe jovens de cidades bem distantes, vindos de famílias que não possuem meios para visitar a capital.

Nos últimos 20 minutos de oficina, não houve tempo para sairmos da biblioteca e fazermos novas imagens na quadra como havia sido programado. Os jovens ficaram no mesmo espaço e com a câmeras na mão ou no tripé e filmaram, certamente já influenciados por Fabio e João, o movimento das páginas dos livros, e os detalhes das letras no papel. Subitamente, muitos deles estavam com livros na mão, manipulando, lendo títulos e autores e descobrindo suas materialidades mesmo.

O tempo havia acabado e os agentes foram firmes no aviso: não toquem mais no computador nem na câmera. João e Fabio deixaram a sala, foram revistados em meio à conversa e seguiram para o refeitório onde seriam revistados na entrada e na saída.

Depois dessas duas horas, deixamos o Santa Clara com enfáticos agradecimentos da coordenadora pedagógica. Como sempre acontece nos Socioeducativos, os relatos se repetem: os jovens ficam mais interessados pela escola, estabelecem relações mais saudáveis com os professores, se motivam mais a escrever e se sentem mais seguros, os professores ficam animadíssimos em fazer algo que os mobiliza tanto e em tantas esferas.

Carro, estrada, distância novamente. Na primeira meia hora no Santa Clara, vivi a tristeza imensa de ver o que a pobreza e a vida havia feito com aqueles rapazes. Duas horas depois só pensávamos em encontrar meios para estarmos ali com eles.

* Os nomes dos jovens foram trocados.

* Ministrou a oficina o professor Rodrigo Monteiro, de Biologia, auxiliados pelos coordenadores do Inventar com a Diferença/Mutum, parceria UFF/UFMG, Alexandre Pimenta e Ana Lucia Azevedo. Coordenação MG, Inês Teixeira com o total de 13 professores em 8 escolas, sendo 3 centros socioeducativos.

Autor: Cezar Migliorin

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