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O cineclubismo como ação direta: Ocupa COLTEC, o cinema e audiovisual como ferramenta política

Como professores e mediadores da educação, como é possível apoiarmos as ocupações estudantis sem incorrer no risco de contrariar as reivindicações de autonomia dos estudantes?

O projeto Quintal, quintais, inserido no Inventar com a diferença – 2, auxilia-nos a pensar nessas questões. E a entender como o cinema e o audiovisual podem ser ferramentas úteis durante os processos de ocupação. O projeto foi apresentado ao grêmio do COLTEC- Colégio técnico da UFMG , em setembro de 2016. Nessa mesma semana,  iniciou-se a Ocupação da escola. Por conta desse contexto, as mediadoras do projeto, Glaura Cardoso e Raquel Junqueira, participaram de uma atividade realizada autonomamente pelos estudantes, auxiliando em conversas sobre a exibição de um filme na ocupação. Nesse diálogo, construiu-se um levantamento de filmes a partir de temáticas que constam no projeto: acesso à cidade, direito à subjetividade, questões ligadas à juventude, mas, também, em relação a movimentos de resistência na história do nosso país. Dentre eles, destacaram-se as obras  Branco sai, preto fica (Adirley Queirós, 2014), A cidade é uma só? (Adirley Queirós, 2012), L.A.P.A (Cavi Borges, Emílio Domingos), ACABOU A PAZ, Isto aqui vai virar o Chile! Escolas Ocupadas em SP (Carlos Pronzato, 2015) Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 2014), A família de Elizabeth Teixeira (Eduardo Coutinho, 2014), Corumbiara (Vincent Carelli, 2009).

Os estudantes escolheram o filme Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile (2016), do chileno Carlos Pronzato, considerando a urgência de se debater as Ocupações. Durante cerca de duas horas de debates, os jovens conversaram sobre as reivindicações e enfrentamentos dos estudantes secundaristas de São Paulo. Em comparação com a Ocupação que iniciavam, os estudantes consideravam que estavam num espaço privilegiado e até certo ponto protegido, uma vez que o COLTEC se localiza dentro de um campus universitário. Até então, os ocupantes não haviam se deparado com uma resistência que os impedisse de estar ali, embora tivessem passado por um processo que não teve adesão e apoio imediato de todos os professores. Nos dias que seguiram, a aprendizagem de como Ocupar uma escola, organizar atividades, pensar a convivência coletiva e a distribuição das tarefas tornou-se uma ação cotidiana. Havia muito otimismo, esperança, mas também preocupação em como gerir com responsabilidade aquele movimento.  Partindo de um objetivo inicial de discutir a PEC 241/55 e a medida provisória da reforma do ensino médio, a Ocupação direcionou-se a formas mais subjetivas como, por exemplo, intervenções artísticas no espaço da escola que mudasse a rotina ou mesmo uma pintura no pátio que até então não sabiam se seriam ou não reprimidos por isso. E ficou claro que só saberiam se eles propusessem uma ação.

Outro vídeo exibido foi o da fala da estudante Ana Julia na Assembleia Legislativa do Paraná, sobre as Ocupações e a PEC 241/55. Nele, a jovem aborda a morte de um adolescente em uma escola ocupada no Paraná, colocando o abandono do Estado como o culpado pelo crime. No caso desse estado, o acontecimento ganha uma forte dimensão, porque os professores e servidores estavam em greve e os próprios adolescentes cuidavam de tudo, inclusive da segurança. Esse fato foi compartilhado pela mediadora Glaura Cardoso, que visitou a  Escola Estadual Júlia Wanderley em outubro de 2016 em Curitiba. Muitas das escolas paranaenses estavam sem nenhum tipo de amparo direto na vigília e manutenção. Essas informações externas ao vídeo auxiliaram na compreensão do argumento da Ana Júlia que acusou aos deputados de estarem com “as mãos sujas de sangue” do estudante morto.

No dia 1/12/2016, foi realizado um ato em Brasília contra votação da PEC 55 no Senado, reprimido com forte violência. Outros atos em frente ao Campus da UFMG foram alvos de truculenta repressão policial. Afetados por essas experiências, os estudantes decidiram assistir Ressurgentes (2014), de Dácia Ibiapina na ocupação. O debate contou com os comentários de uma convidada do PPGCOM, a mestranda Paula Kimo, e com a presença de alguns professores. A discussão não se deteve apenas nos aspectos de ação direta abordados pelo filme e foi ampliada. No debate, constatou-se que a tática de ação direta não se limita aos embates e confronto direto com a polícia, mas que a Ocupação de uma Escola, a própria ação de realizar uma atividade cineclubista em local que não foi pensado para aquele tipo de intervenção e debate, é uma tática de ação direta.

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