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Escola Experimental de Cinema em Conde, Paraíba

Nos últimos anosnos acostumamos a receber filmes surpreendentes feitos em escolas do município do Conde, contíguo a João Pessoa, na Paraíba. Com frequência, eram filmes com uma intensa carga criativa e forte participação de crianças bem jovens.

O processo desses filmes era mediado por Ana Bárbara, uma talentosa cineasta paraibana.

Em meados de outubro, tivemos a possibilidade de conhecer a escola José Albino Pimentel, onde grande parte do projeto tem se concentrado.

Trata-se de uma escola de nível fundamental I com pouco mais de 200 alunos e 12 professores, situada nas proximidades de um quilombo, em uma área que traz marcas de um espaço rural, mas também da periferia de uma grande cidade – João Pessoa.

A singularidade dessa experiência ali é o fato de ter sido criada uma “escola experimental de cinema” no interior da própria escola. “Uma escola dentro da escola”, como nos disse uma das professoras envolvidas. Aos poucos, a partir da introdução do audiovisual na rotina escolar e da mobilização e engajamento de muitos professores, pensou-se na possibilidade de um espaço exclusivamente para o cinema, como um laboratório de imagens. Ali se faz e se assiste filmes, empresta-se DVDs e até uma funcionária exclusivamente dedicada à Escola Experimental de Cinema foi deslocada para lá.

Além de ter a quase totalidade da escola participando da experiência, surpreende a forma como o cinema transita por atividades e interesses muito distintos entre os professores. Com uma força documental, o cinema é parte das atividades do professor que trabalha com o Coco de Roda e também da professora mais atenta aos modos de vida rurais, a relação com as plantas e seus cultivos, por exemplo.

Ainda na UFF, alguns dias antes de irmos à escola, assistimos a alguns dos filmes mais recentes feitos pela comunidade de professores e alunos da escola José Albino Pimentel. Em um deles, nos divertimos com a forma de uma criança apresentar as hortaliças. Já no Conde, nos reunimos com professores, crianças e funcionários para assistir os filmes. Com todos sentados no chão, acompanhamos os registros naquela típica relação entre atenção e desatenção das crianças com as imagens. Impossível exigir silêncio e alguma ordem a dezenas de crianças daquela idade reunidas num mesmo espaço. A algazarra de vozes e brincadeiras se confundia com os sons dos registros projetados. Por vezes, tínhamos a impressão de que estavam distantes do filme, mas quando chegamos à cena que nos fez rir no Rio, uma surpresa: ali também, a gargalhada foi geral. Não só todos estavam atentos, como o que fazia rir os professores da UFF era a mesma coisa que fazia os meninos e meninas de 8, 9 anos da escola na Paraíba rirem também.

Eram evidentes a alegria e o contentamento das crianças por estarem diante daquelas imagens da própria comunidade e, sobretudo, diante de planos e sequências criados por elas mesmas. Essa experiência de ver juntos os filmes feitos ali nos evidenciava como o cinema ligava as crianças à própria comunidade, criava um novo laço entre os membros mais velhos (os filmados) e os mais jovens (que os filmam).

Metodologicamente, essa singular experiência em Conde explicita a importância do engajamento de toda a escola com um projeto como esse. A construção de um espaço, o envolvimento sincero de muitos professores e o engajamento também da direção permitem a intensificação das experiências com o cinema, do debate sobre as imagens, da descoberta do território e da sua história, do envolvimento com a comunidade e a família e, sobretudo, com a própria criação das crianças.

Se, por um lado, o cinema transita pela escola, pode estar em tantos lugares, assuntos e experiências, por outro, a constituição de um espaço – essa “escola dentro da escola” – parece dar a força e a continuidade necessárias para um pleno desenvolvimento de suas possibilidades.

por Douglas Resende e Cezar Migliorin

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